A Louça “Ratinho” em Portugal: O Prevalecer de uma Arte à Beira do Fim
da autoria de Mafalda Teixeira Inácio
Dotado de charme e tradição, o largo da Sé Velha destaca-se pela quantidade de histórias que abraça. Neste que é um dos recantos mais emblemáticos da cidade abrem-se portas a mundos ainda por explorar. Amor, conforto e lazer entrelaçam-se na arte de Carlos Tomás, o último produtor de louça “ratinho” em todo o país.
Fachada da loja de Carlos Tomás, no largo da Sé Velha de Coimbra
Fachada da loja de Carlos Tomás, no largo da Sé Velha de Coimbra
As tintas parecem escapar dos pequenos potes que as encurralam, tamanho é o uso que lhes é dado por Carlos Tomás há, aproximadamente, 59 anos. “Comecei com 11 anos, numa fábrica que já não existe (…) Era a Fábrica de Conímbriga, ali em Condeixa”, explica o pintor cerâmico à medida que se prepara para pintar mais uma das suas obras.
A um ritmo vagaroso, condicionado pelo uso de muletas, Carlos Tomás abandona o seu escritório improvisado. Entre inúmeras peças de louça prontas a serem vendidas, tintas coloridas e pincéis de todos os formatos e feitios, o pintor esboça um sorriso e, cuidadosamente, pousa o seu mais recente rascunho sobre um pequeno banco giratório.
Murmúrios de Cerâmica Beirã
Sempre acompanhado pela acarinhada Katy, cadela de estimação e “musa inspiradora”, Carlos Tomás não tarda a sentar-se no seu lugar predileto de toda a loja: uma janela com vista privilegiada para a Sé Velha, onde passa grande parte do seu tempo. Num gesto experiente, o pintor gira o prato de cerâmica e coloca, quase de imediato, uma colher de pau sobre a peça, de forma a conseguir apoiar a sua mão dominante. “Antes não precisava de nada disto”, esclarece Carlos Tomás, “mas a idade tem destas coisas”.
A cada nova passagem de cor pela peça de louça, o pintor cerâmico garante que, embora o futuro seja incerto para esta arte em Portugal, o que mais o motiva a continuar dia após dia é “o gosto”. Para Carlos Tomás, a louça pintada à mão é um “conforto” imensurável, que não deve ser considerado como uma profissão, mas sim como uma forma de lazer.
Reflexos de uma arte que se perde: A Louça “Ratinho”
Capa do livro adquirido por Carlos Tomás
Capa do livro adquirido por Carlos Tomás
Submerso num mundo que é só seu, Carlos Tomás esboça pequenos peixes na sua mais recente criação. Dono de um monopólio artístico esquecido pelas grandes massas, o pintor cerâmico esforça-se, dia após dia, para manter viva uma das artes mais características da região centro. “A louça ratinho tem uma história”, afirma Carlos Tomás.
Com um brilho no olhar, o artista explica que este tipo de cerâmica remete aos séculos XVIII e XIX: “havia várias oficinas que chamavam, antigamente, de tendas, (…) era onde fabricavam esta louça que era usada como um utensílio de cozinha”. Gira a peça uma vez mais, ajeita os óculos e volta a pousar a colher de pau sobre o prato de louça. De pincel na mão, Carlos Tomás esclarece que, a este tipo de cerâmica, dá-se o nome de “ratinho ou troca-trapos”.
Levanta o olhar e solta uma gargalhada capaz de ecoar por toda a loja. As memórias de um passado longínquo parecem invadir o artista, consoante pinta: “antigamente, os invernos eram mais rigorosos e os senhores trocavam estas peças de louça, que foi considerada a mais bonita do mundo no início do século XIX, (…) por casacos e camisolas, daí ser chamada de troca-trapos”.
Molha o pincel numa tinta acinzentada, que após todos os processos de vidragem e cozedura tornar-se-á verde, e desenha calmamente as escamas dos vários peixes que decoram a sua nova obra. Como se tivesse todo o tempo do mundo, Carlos Tomás avança ser “uma pessoa que estuda todos os dias esta arte”, pois considera ser importante “continuar uma cerâmica que, para muitos, já tinha morrido”.
Enquanto último produtor de louça ratinho em Portugal, Carlos Tomás afasta o sentimento de dever face à continuidade desta arte: “não é responsabilidade nenhuma, faço porque gosto”. Segundo o próprio, a grande problemática por detrás da falta de investimento na “cerâmica ratinho” é a pouca rentabilidade. “Como não é rentável e por ser menos conhecida, as outras pessoas não o fazem”, esclarece o pintor cerâmico.
À medida que limpa o pincel num pequeno frasco de água, de modo a dar uso a outra tonalidade na louça, Carlos Tomás abre um sorriso honesto e explica que grande parte da sua inspiração provém da Fundação Manuel Cargaleiro, em Castelo Branco, uma vez que “tem uma coleção muito grande de louça ratinho”.
“Adquiri um livro [da Fundação Manuel Cargaleiro] com várias peças dos séculos passados”, esclarece o pintor cerâmico à medida que contorna os animais desenhados com um tom mais escuro, e “vou fazendo cópias, algumas faço exatamente o que está lá e noutras vou fazendo um pouco diferente”. Em modo de exemplo, o artista afirma que, por vezes, escolhe várias peças e usa “um pouco de cada uma”, de modo a criar “uma nova à Carlos Tomás”.
Nesta “mistura de tradição e inovação”, a louça ratinho alcança todo o tipo de público, desde miúdos a graúdos e desde clientes nacionais a internacionais. Com um encanto tipicamente seu no olhar, Carlos Tomás relata o seu espanto ao descobrir que a louça ratinho vai além-fronteiras: “Fiquei muito surpreendido em saber que na região de Vigo conhecem a louça ratinho como eu a conheço, fiquei mesmo muito admirado”.
Num suspiro sincero, Carlos Tomás lamenta a falta de reconhecimento que a louça ratinho tem, no país que a viu nascer. “Lá fora as pessoas conhecem bem, quem menos conhece a ratinho são mesmo os portugueses”, clarifica o artista. Com 70 anos já feitos, o pintor cerâmico não perde a vontade de “animar o conhecimento das pessoas” sobre a louça pintada à mão e apela, ainda, à necessidade de “acordar a curiosidade” daqueles que não conhecem a cerâmica regional.
Em cada Esquina,
uma Assinatura
Em cada Canto, Cultura
Além da louça ratinho, típica da região centro, a arte de Carlos Tomás destaca-se por muito mais. A pintura em azulejos, pratos tradicionais, lembranças da cidade, telhas, utensílios de cozinha e candelabros são algumas das muitas possibilidades a escolher.
No entanto, o trabalho do pintor cerâmico não se deixa ficar pelo largo da Sé Velha de Coimbra. Com um olhar atento e observador, é possível concluir que a arte de Carlos Tomás toma lugar um pouco por toda a cidade. Com um carinho imensurável a Coimbra, que o viu nascer, o artista acredita que é um privilégio ter as suas criações espalhadas por cada recanto.
Com um sorriso estampado no rosto e um tom animado, Carlos Tomás diz ter “(…) por aí alguns trabalhos engraçados”. Ao descrever, de forma precisa e detalhada, o caminho até lá chegar, o pintor cerâmico começa por abordar uma obra, situada perto do edifício das Águas de Coimbra.
“Por detrás do elétrico, está lá um painel de azulejos com uma tricana e com a Igreja de São Bartolomeu”, descreve ao pormenor Carlos Tomás. Com um tom orgulhoso, o pintor explica que esta é uma obra da sua autoria: “fui eu que o pintei”. Pela voz de Carlos Tomás, quase que é possível materializar o cenário que o cerâmico desenha. Num tom risonho, o artista esclarece que por estar “escondido atrás do elétrico, ninguém vê” o painel de azulejos.
Mais próximo à localização da loja de Carlos Tomás, a assinatura do pintor também surge em variados recantos. No Hostel Sé Velha, no largo mais emblemático da cidade, um painel composto por 143 azulejos surge na fachada do prédio. Os tons de azul destacam-se e desenham a catedral mais antiga de Coimbra, envolta num pergaminho meticulosamente detalhado.
Com simplicidade, Carlos Tomás ajeita-se na cadeira e explica que, como qualquer outro trabalho, o painel foi pintado na loja, da qual faz casa há largas décadas. “Foi pintado ali”, diz o pintor enquanto aponta para um cavalete próximo à porta de entrada do espaço comercial. A obra foi feita em “azulejos em branco, azulejos vidrados em cru, e foi desenhar e pintar”, esclarece Carlos Tomás.
Além de painéis e obras mais detalhadas, o pintor cerâmico também se responsabiliza por trabalhos mais pequenos e com os quais os moradores da cidade se deparam diariamente, mesmo que não se apercebam. É na casualidade do quotidiano que a assinatura de Carlos Tomás mais se faz ouvir: números de portas, nomes de ruas e nomenclaturas de estabelecimentos públicos são alguns dos recantos que abraçam o nome do artista.
Pensativo e sem votos de esperança, Carlos Tomás acredita que “a louça pintada à mão” vai acabar por perder o seu rasto. Quando menciona a extinção deste tipo de cerâmica, o pintor realça a perda do património associado à “louça ratinho, à louça de Coimbra, do século XIX e do século XX”.
Quase que de uma forma poética, ouvem-se os sinos no largo da Sé Velha, quando Carlos Tomás expressa o seu desalento quanto ao futuro da tradição cerâmica das Beiras: “o tradicional vai acabar com certeza absoluta, porque ninguém quer aprender e também não deixam que as pessoas aprendam”.