Diversidade e Inclusão: O Papel do Assistente Social

Sendo a profissão do assistente social um pouco desvalorizada nos dias que correm, esta reportagem mergulha num relato repleto de desafios diários e dedicação.

O trabalho de um assistente social é essencial para a promoção da justiça social e o apoio de indivíduos em situação de vulnerabilidade, mas atualmente é apenas confundido com caridade ou desvalorizado por muitos.

Andreia Romão é uma jovem de 22 anos, criada numa pequena cidade situada na costa algarvia portuguesa. É licenciada em Serviço Social e encontra-se a tirar mestrado em Serviço Social e Política Social na universidade Lusófona de Lisboa. Atualmente está a fazer estágio profissional no Centro Humanitário de Tavira/Cruz Vermelha, na resposta social “Serviço de Apoio Domiciliário (SAD)”.

Desde pequena sempre soube que queria seguir uma área onde ajudasse pessoas mais vulneráveis e debilitadas e por isso licenciou-se em Serviço Social no politécnico de Beja no ano de 2022/23.

Ao encontrar-me com a entrevistada, num café perto do seu trabalho, quando o sol já estava quase posto, era possível ouvir o barulho dos pássaros de fundo e também algumas vozes que pertenciam às poucas pessoas que naquele sítio se encontravam a bebericar os seus cafés e refrigerantes gelados.

O aroma naquele dia era particularmente quente e o sol apesar de quase posto ainda ardia em brasa. Andreia Romão, atualmente residente em Tavira, destaca que o papel dos assistentes sociais na comunidade é bastante importante.

“O nosso dever é capacitar uma pessoa que se sente excluída da sociedade e darmos-lhe uma nova oportunidade de se voltar a incluir”

A entrevistada refere que a profissão do assistente social é bastante teórica, o que leva a que muitas vezes estes sejam a ponte entre as pessoas e as infraestruturas.

“Isto acontece porque muitas vezes as pessoas vêm ter connosco, têm uma certa necessidade e a nossa especialização pode não ser a resposta adequada para a pessoa, devido à instituição, por isso nós reencaminhamo-la para o tipo de serviço que ela necessita”

Refere que a ética profissional é muito importante na profissão e que todos os dias se debatem de modo a saber se aquilo que estão a fazer é o correto ou não. Como exemplo falou sobre vítimas de abusos domésticos e de que é correto respeitar a decisão do individuo, de não denunciar o abusador, mesmo sabendo que a mesma possa ser vítima de maus-tratos.

“É importante termos o nosso código ético connosco caso tenhamos dúvidas e assim podemos reler e saber o que fazer em certas situações de dúvida”

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Desafios e Entraves: Obstáculos do Serviço Social

Da perspetiva da jovem, os desafios diários da profissão são vários e dependem muito de acordo com a instituição onde se inserem. Ao ser perguntada sobre qual seria o desafio mais complexo a mesma afirmou: “Eu diria que, no geral, lidar com problemas diferentes todos os dias e tentar ‘resolvê-los’”.

“Não resolvemos, só intervimos nos problemas e nas necessidades dos indivíduos, tentamos resolver de uma maneira criativa e talvez isso seja o maior desafio, porque as pessoas podem ter a mesma raiz do problema, mas cada individuo tem a sua realidade social”

Além disso, a mesma refere que o facto de lidarem com todo o tipo de população, sejam eles “sem abrigo, crianças, pessoas com menos posses monetárias, idosos, entre outros”, é algo que não é fácil de enfrentar e que mexe com a saúde mental da maioria dos profissionais.

“A nossa profissão não se baseia na caridade, temos o dever de ajudar as pessoas no sentido de fazer uma intervenção, mas não fazemos assistência social, tentamos intervir no problema da pessoa de forma que ele não volte”, disse a entrevistada ao se referir à dificuldade que os assistentes sociais sentem em não conseguirem explicar à comunidade a diferença entre o serviço social e a caridade.

Andreia revela que para si o maior entrave da profissão atualmente é a falta de recursos, “sejam eles humanos ou técnicos”. Acrescenta que por falta dos mesmos, muitas vezes é difícil de realizar projetos e programas para pessoas que estejam numa fase mais vulnerável da sua vida.

“Não somos devidamente reconhecidos a nível publico, por exemplo na comunicação”, foram palavras da jovem ao referir que a sua profissão não tem visibilidade suficiente e que por isso, muitas vezes, as pessoas não têm noção de qual é o verdadeiro trabalho por trás da profissão. “Somos tão importantes quanto um médico, um sociólogo ou até mesmo um psicólogo”, afirma a tavirense emocionada.

Além disso, a jovem apresenta bastante desagrado ao afirmar que a profissão é desvalorizada quando as empresas contratam pessoas fora da área para substituir os assistentes sociais. Enquanto bebe o seu ice tea de limão bem fresco, declara que “há coisas que temos de fazer, que aprendemos na nossa formação base, que uma pessoa de outra área não saberá fazer corretamente, então o trabalho fica mal feito e acabam por desvalorizar aquilo que fazemos.”

Da sua perspetiva, Andreia demonstra-se incomodada por Portugal não ter uma grande base de dados de investigação sobre a sua área.

“Não termos tanta parte investigativa e trabalhos como há por exemplo no Brasil”

Andreia relata que o primeiro desafio que enfrentou como assistente social deu-se num dos seus primeiros dias de estágio profissional. Segundo a mesma, tinham um utente que era cego e vivia sozinho porque a família o tinha abandonado. A única família que lhe restava era uma irmã que não o conseguia pôr num lar e não o podia ter em casa por falta de espaço. A jovem, de modo a ajudar este senhor que se sentia sozinho, tentou de tudo, até tentou o aconselhou a ir a um centro-dia para não se aborrecer sozinho. Como o senhor não queria, a solução passou por ligar à irmã do utente e voltar a falar sobre o assunto, tendo esta acabado por arranjar efetivamente uma vaga num lar para o seu irmão.

“Esta foi a experiência mais desafiadora de que me lembro”

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A Prática do Autocuidado e seu impacto a Nível Emocional

A nível emocional, Andreia partilha que no seu trabalho atual a parte mais desafiadora são as visitas domiciliárias, isto porque, é duro para a jovem ver as condições em que as pessoas se encontram.

“Custa-me muito a nível emocional no sentido de a pessoa ter chegado àquele estado após ter vivido tudo o que tinha a viver e de repente depende de várias pessoas e é impossível sair dessa situação”

No seu trabalho lida maioritariamente com população envelhecida, o que leva a que muitos dos “problemas” da comunidade sejam “abandono de familiares, solidão, frustração por terem problemas que antes não tinham, entre outros”. A tavirense afirma que “não é fácil lidar com essa população” porque lhe faz “pensar muito na vida e em como a deveríamos viver”.

“É muito doloroso para mim pensar que um dia posso acabar assim, sem saber quem são os meus amigos e família, sem me conseguir tratar sozinha ou até mesmo comer e fazer coisas banais da vida”

De forma a evitar esgotamentos nervosos, a entrevistada afirma que tenta abstrair-se o máximo possível dos “problemas dos utentes”, e que para isso costuma “fazer exercício físico, como uma caminhada ou até mesmo passadeira, ler e também passar tempo com família/amigos”.

“É uma coisa um pouco complicada porque nós tentamos sempre não levar os problemas para casa, mas os problemas vêm inevitavelmente connosco”
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Metas e Conquistas: Caminho para o Sucesso

Confessa que ainda não realizou muitos trabalhos de voluntariado, a não ser alguns de recolha de bens alimentares, mas que é algo que está na sua lista.

“Para ser sincera, dos trabalhos de voluntariado que já realizei, senti-me muito bem e não só porque eu e os meus colegas estamos a contribuir para algo que é maior que nós, mas sinto-me sempre muito realizada e feliz quando pedimos às pessoas contribuições e elas ajudam com aquilo que podem”

De maneira a melhorar as condições de trabalho atuais, a jovem afirmou que na sua opinião faz falta que proporcionem algum tipo de apoio emocional, como um psicólogo.

“Os assistentes sociais como lidam com problemas o dia todo acabam por ter uma maior dificuldade em ultrapassar algumas coisas que são vividas e ouvidas durante o dia a dia, e eu não podia ser menos diferente”

“Vejo-me a analisar e a avaliar políticas sociais, acho que poderia ser uma coisa que viria a fazer no futuro ou gostaria de vir a explorar essa área”, disse a jovem ao referir-se ao trabalho que pretende fazer no futuro. Destaca que é uma profissão que lhe interessa, pois consegue ajudar as pessoas mais vulneráveis e ao mesmo tempo não tem contacto direto com as pessoas, algo que, de momento, não lhe agrada muito.

Andreia, já com pressa para ir para casa e retirando as chaves do carro da sua mala, termina com uma frase que acredita que encorajará todos os que querem a seguirem esta área:

“Se queres fazer a diferença no mundo ao mudar a realidade de alguém para melhor, esta área é perfeita para ti”