Sem teto e sem tempo: estudantes empurrados para fora das cidades
A crise habitacional em Coimbra e Lisboa
Passagens estreitas em residências universitárias ilustram a oferta insuficiente de camas. Segundo o Observatório do Alojamento Estudantil da DGES, que mapeia diariamente as rendas e vagas para estudantes em todo o país, há hoje uma discrepância gritante entre procura e oferta. Dados oficiais apontam que cerca de 120 mil estudantes universitários estão deslocados de casa, mas só cerca de 20 mil camas existem nas residências públicas do país. Nas capitais académicas, a situação é ainda mais dramática: cerca de 35 mil camas formais para um universo de 110 mil estudantes deslocados (cobertura de apenas 32% das necessidades). Os restantes jovens disputam quartos no mercado privado a preços muito elevados. O preço médio de um quarto em Portugal atingiu €397 em julho de 2024, fruto de rendas em forte alta. Este rácio oferta/procura, já reconhecido em planos nacionais de há anos, permanece “aquém do necessário”: o Plano Nacional de Alojamento para o Ensino Superior (PNAES) prometia 18 000 camas até 2026, mas pouco avançou.
Fig.1- Infografia de Vítor Higgs
Fig.1- Infografia de Vítor Higgs
A profunda escassez de camas públicas para estudantes deslocados é um dos maiores entraves ao acesso equitativo ao ensino superior em Portugal. Segundo dados oficiais da DGES, em 2025 existem apenas 20 mil camas disponíveis, face a uma procura superior a 120 mil estudantes deslocados em todo o país. O gráfico ilustra esta disparidade enorme: apenas cerca de 1 em cada 6 estudantes consegue vaga numa residência universitária pública. Nas cidades universitárias mais pressionadas, como Lisboa e Coimbra, esta percentagem é ainda mais baixa. Apesar das metas traçadas pelo Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES) — que previa a criação de 18 mil novas camas até 2026 —, os atrasos na requalificação e construção de residências têm comprometido os objetivos. O resultado é um aumento exponencial da pressão sobre o mercado privado, com rendas que ultrapassam frequentemente os €400 por quarto, empurrando milhares de jovens para situações de precariedade, sobrelotação ou mesmo abandono dos estudos.
Portugal conta com mais de 120 mil estudantes deslocados, mas apenas 20 mil camas públicas disponíveis em 2025. Em Lisboa e Coimbra, a sobrelotação e as listas de espera atingem máximos históricos. Fonte: DGES – Dados de Alojamento 2024/25
Portugal conta com mais de 120 mil estudantes deslocados, mas apenas 20 mil camas públicas disponíveis em 2025. Em Lisboa e Coimbra, a sobrelotação e as listas de espera atingem máximos históricos. Fonte: DGES – Dados de Alojamento 2024/25
Fig. 2- Preços de quartos em Lisboa encontrados em sites de aluguer. No topo, o aluguer médio de Lisboa atingiu ~€500 (maio/25). Fonte: Renascença
Fig. 2- Preços de quartos em Lisboa encontrados em sites de aluguer. No topo, o aluguer médio de Lisboa atingiu ~€500 (maio/25). Fonte: Renascença
A pressão sobre o mercado imobiliário elevou drasticamente os custos. Em Lisboa, um quarto para estudantes custa hoje entre €650 e €1 500 por mês– muito acima das médias nacionais – enquanto no Porto varia de €475 a €950. Até Coimbra, onde os preços são “mais baixos comparados a Lisboa/Porto”, os estudantes pagam entre €300 e €850 (valores que já incluem despesas como água, luz, limpeza e internet). Como lembra Igor Borrego (Cushman & Wakefield), esse alojamento “não é para todas as carteiras”. Com ocupação perto dos 100%, André Vaz (JLL) prevê que ainda haja “margem para alguma subida das rendas” diante da procura reprimida. Estes custos cobram fatura: famílias de estudantes apontam que o arrendamento é o maior peso do orçamento estudantil, obrigando muitos jovens a trabalhar horas extras e cortar gastos.
Realidade local: Lisboa em crise
Lisboa concentra quase metade do alojamento privado disponível em Portugal, mas a procura por quartos estudantis disparou nos últimos anos. A pressão sobre o mercado fez com que os preços médios por quarto atingissem cerca de €480 em julho de 2024, segundo dados noticiados pela imprensa, chegando facilmente aos €700 nas zonas mais centrais. A oferta de residências públicas continua insuficiente, o que leva a maioria dos estudantes deslocados a optar por apartamentos partilhados. Em muitos casos, esses espaços oferecem condições precárias: sanitários sobrelotados, divisões exíguas e falta de privacidade. A alternativa encontrada por alguns passa por deslocações diárias entre zonas periféricas e as universidades, com percursos que podem ultrapassar os 30 km, como forma de reduzir os custos com habitação. A crise habitacional estudantil tornou-se, assim, um fator determinante na qualidade de vida e no desempenho académico de milhares de jovens.
Para estudantes deslocados, encontrar casa em Lisboa é uma tarefa difícil e cara. A procura é alta, a oferta é escassa e os preços só tendem a aumentar. A maioria recorre a plataformas online e contactos pessoais, mas o processo é longo e desgastante. Sem alternativas públicas, muitos partilham casa em condições apertadas e a ansiedade de não saber onde viver no próximo ano é constante. Muitos inquilinos acabam por se aproveitar do desespero dos jovens, colocando preços exorbitantes em quartos sem as mínimas condições. Viver e estudar na capital tornou-se, para muitos, um desafio diário.
Entrevista a Leonor Mariano, estudante de Serviço Social no ISCTE (Universidade de Lisboa)
Entrevista a Leonor Mariano, estudante de Serviço Social no ISCTE (Universidade de Lisboa)
Realidade local: Coimbra também sofre
No resto do país há nuances, mas a crise chegou a Coimbra com força. A Associação Académica da Universidade de Coimbra (AAC) calcula que o alojamento represente cerca de €600 mensais do custo de vida de um estudante deslocado (sem contar propinas). O Observatório do Alojamento Estudantil registou um aumento de mais de 12% na renda média de quartos na cidade: de €240 para €270 em um ano. Mesmo assim, Coimbra “não é das mais caras”, dizem os estudantes: mas faltam vagas. A Universidade de Coimbra tem pouco mais de 1 000 camas em residências para um total de cerca de 25 mil estudantes deslocados (sem falar de politécnicos e privadas). As associações locais argumentam que esse número deveria ficar perto de 1 500 segundo o PNAES. Na prática, os custos de vida sobem: o orçamento médio calculado por alunos subiu de ~€520 para €590 por mês (já somando parte da renda). Muitos, então, pernoitam em quartos longe do centro ou continuam em casas-partilhadas improvisadas, temendo mudar por receio de não encontrar lugar a preços razoáveis.
Para muitos estudantes deslocados em Coimbra, viver numa residência pública é a única forma de suportar os custos do ensino superior. No entanto, com o encerramento de várias unidades para obras de requalificação, aumenta a pressão sobre quem precisa de alojamento acessível.
Procurar alternativa no mercado privado torna-se uma corrida contra o tempo — e contra a carteira. Embora Coimbra tenha, em média, rendas mais baixas do que Lisboa, os preços continuam elevados para estudantes; quartos entre €350 e €700 são comuns, com oferta limitada e grande concorrência.
O encerramento das residências obriga muitos jovens a arriscar soluções temporárias, a viver longe da universidade ou a ponderar desistir. A incerteza quanto ao próximo ano letivo gera ansiedade e fragiliza a estabilidade necessária para estudar e sem um reforço rápido da oferta pública, a crise habitacional ameaça transformar Coimbra numa cidade cada vez menos acessível para quem vem de fora.
Entrevista a Tomé Jesus, estudante de Estudos Europeus na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Entrevista a Tomé Jesus, estudante de Estudos Europeus na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Políticas públicas e soluções parciais
O governo tem anunciado medidas, mas são consideradas tímidas pelos estudantes. O Orçamento de Estado 2025 planeia adicionar cerca de 13 300 camas novas em residências universitárias. Esse número mantém a meta de 2024 (que previa 7 200 camas até o fim de 2024 e 18 000 até o fim do PRR), estabelecida ainda no plano de António Costa. Ainda assim, pouca coisa saiu do papel até agora: a meio de 2025 apenas uma pequena fração dos 127 projetos do PNAES estava concluída. Para conter o caos imediato, o Ministério da Juventude lançou acordos emergenciais. Um protocolo com as Pousadas da Juventude e o INATEL vai disponibilizar 709 camas extras em todo o país.
Além disso, foi aprovada em maio de 2024 a extensão de subsídios habitacionais ao aluguer dos estudantes que não recebem bolsa: famílias de renda mensal per capita entre 836€ e 1 018€ passam a ter 50% do complemento de alojamento – estimando-se que esta medida alcance cerca de 13 000 estudantes deslocados“não bolseiros”. Por outro lado, programas já existentes continuam ativos: o Porta 65 Jovem (subsídio ao arrendamento para jovens) e o crédito facilitado aos arrendatários até €450 mil contribuem indiretamente para aliviar custos.
Apesar dos números oficiais, dirigentes estudantis avaliam que faltam ações concretas. “Temos mais vagas do que há um ano, mas longe do necessário”, diz Mariana Barbosa (vice da FAL). O pano de fundo é claro: obras de residências públicas levam meses (atualmente 45 prédios em obras tiram 2 500 camas do uso). No setor privado, investidores estrangeiros aproveitam a oportunidade – Xior, Milestone e outros compram terrenos e residências com “yields atrativas”. Mas isso não reduz já a lista de espera. Para muitos universitários, o alojamento continua sendo o maior obstáculo para prosseguir os estudos.
Estudar é resistir
Em Lisboa e Coimbra, a crise habitacional pesa sobre os estudantes como nunca. Com rendas médias excessivas nas principais cidades, muitos jovens são obrigados a conciliar empregos a tempo parcial com os estudos – um esforço que «ressente-se» nas notas académicas e até na saúde mental. A oferta pública de alojamento continua aquém da procura, e alguns casos extremos terminam em desistência: «tiveram de desistir dos seus sonhos de frequentar o ensino superior», lamentam associações estudantis.
Nos papéis, o PNAES (Plano Nacional de Alojamento no Ensino Superior) e o PRR destinavam-se a criar milhares de novas camas. Na realidade, a implementação de projetos para alojamento estudantil tem sido morosa: em março de 2025 a execução do PRR atingiu apenas 9%, um avanço claramente insuficiente. A Direção-Geral do Ensino Superior admite que «apenas uma pequena fração dos projetos foi concluída», devido aos elevados custos de construção e entraves burocráticos. Associações estudantis já alertam que, assim, a falta de alojamento acessível poderá agravar ainda mais o abandono escolar. A crise habitacional revela-se, assim, um fator estruturante de desigualdade no acesso ao ensino superior, pondo em causa o futuro das novas gerações. Ao fim e ao cabo, nas palavras dos próprios estudantes, «a propina dói, mas o alojamento mata»
Fontes da reportagem: Estatísticas oficiais (INE, DGES, PNAES), levantamentos do Observatório do
Alojamento Estudantil e reportagens recentes (DN, SIC Notícias,
Renascença) informam os dados acima. As citações são de estudantes e dirigentes (DN, SIC) e especialistas imobiliários (Cushman & Wakefield, JLL). Dados adicionais foram obtidos em publicações de organismos oficiais (DGES) e portais de notícias económicos (ECO).